O Primeiro Sutiã: O Comercial que Revolucionou a Publicidade Brasileira
Em 1987, um comercial simples mas profundamente emocional mudaria para sempre o rumo da publicidade brasileira. “Meu Primeiro Sutiã”, produzido para a marca Valisère, não foi apenas um anúncio: foi um fenómeno cultural que transcendeu as barreiras da televisão e se tornou parte do imaginário popular português e brasileiro. Mais de três décadas depois, a frase “O primeiro sutiã a gente nunca esquece” continua a ser citada em contextos completamente distintos, desde redes sociais até referências literárias. Este artigo explora a história deste comercial icónico, seu impacto duradouro e a forma como redefiniu os padrões da comunicação publicitária moderna.
O Nascimento de um Clássico: 1987
A Criação do Comercial
Em abril de 1987, a agência W/GGK, sob a orientação criativa do brilhante publicitário Washington Olivetto, lançava uma campanha que se tornaria lendária. O comercial foi filmado pelo realizador Julio Xavier e contou com a participação criativa de Rose Ferraz e Camila Franco. Apesar do seu impacto colossal, a produção teve um orçamento modesto: custou apenas 86 mil dólares americanos na época, um investimento que se revelaria extraordinariamente rentável em termos de retorno de imagem e valor cultural.
O comercial estreou num intervalo do programa Fantástico, transmitido pela Rede Globo, num domingo que mudaria a história da publicidade brasileira. Segundo Washington Olivetto, o telefone não parou de tocar na noite da estreia, um sinal claro de que algo verdadeiramente especial tinha sido criado. A produção foi exibida integralmente apenas três vezes na televisão, num total de 90 segundos, mas essa breve passagem foi suficiente para gravar a campanha na memória coletiva de gerações.
Produtos
Arnês Peito Triangular Couro Preto Correntes Prateadas Jóia Corporal Ajustável Tamanho Único Fetichista Sensual Tiras Pescoço Costelas Realce Seios Nus216,00 €A Protagonista que se Tornou Ícone
Patrícia Lucchesi tinha apenas 11 anos quando protagonizou este comercial que lhe traria fama eterna. A jovem atriz interpretava uma adolescente vivendo o momento icónico da compra do seu primeiro soutien, capturando com naturalidade e autenticidade os sentimentos de transição para a vida adulta. Décadas depois, Patrícia Lucchesi transformou-se numa psicóloga especializada em Transtorno do Espectro Autista (TEA), baseada em São Paulo, levando a sua experiência de vida para uma carreira profissional dedicada ao bem-estar mental.
A escolha de Patrícia para este papel foi perspicaz. A sua inocência e a naturalidade da sua atuação criaram uma conexão emocional com o público que transcendia o objetivo comercial. Ela não apenas vendia um produto; ela narrava uma experiência universal das mulheres, transformando um momento íntimo num símbolo de crescimento e empoderamento feminino.
O Bordão que se Tornou Cultura Popular
Uma Frase que Transcendeu o Comercial
“O primeiro sutiã a gente nunca esquece” – esta frase simples, elegante e profundamente verdadeira, tornou-se uma das mais conhecidas frases da história da publicidade em todo o mundo de língua portuguesa e além. Quando Washington Olivetto digitalizava a expressão no Google anos mais tarde, encontrou mais de um milhão de citações espalhadas pela internet, um testemunho notável do alcance cultural da campanha.
O que torna esta frase tão memorável é a sua estrutura psicológica. Utiliza uma técnica de marketing emocional que conecta o produto a um momento pessoal significativo na vida de cada mulher. Não é um apelo racional aos benefícios do soutien; é um apelo emocional que toca no coração das pessoas. A frase combina universalidade – quase todas as mulheres experimentam este momento – com intimidade e nostalgia.
A Propagação Viral Antes da Internet
Surpreendentemente, numa época muito anterior aos social media e ao marketing viral moderno, a frase começou a disseminar-se organicamente através da sociedade. Cerca de dez anos após o comercial original, a expressão havia-se transformado numa referência cultural corrente. Washington Olivetto recorda-se de ler a frase adaptada em textos sobre gastronomia: “O primeiro coq au vin a gente nunca esquece”. Esta adaptabilidade e flexibilidade da frase é indicativa da sua força como construção linguística e cultural.
Hoje, pessoas que nasceram décadas após 1987 utilizam a frase com naturalidade, frequentemente sem saberem da sua origem comercial. Converteu-se genuinamente num dito popular contemporâneo, o que é uma realização rara e valiosa para qualquer campanha publicitária. Investigadores de marketing estudam este comercial como um caso de estudo em criação de conteúdo duradouro e meaningful.
O Impacto Revolucionário na Publicidade Brasileira
Redefinir os Padrões da Comunicação
Antes de “O Primeiro Sutiã”, a publicidade brasileira era amplamente transaccional e focada em características do produto. Este comercial introduziu uma abordagem fundamentalmente diferente: a publicidade emocional. Washington Olivetto foi um pioneiro nesta estratégia, reconhecendo que as pessoas não compram apenas produtos, mas histórias, sentimentos e significados.
O comercial ganhou múltiplos prémios internacionais, incluindo o reconhecimento de melhor comercial do ano em todo o mundo, atribuído no Japão. Consta na lista dos 100 Melhores Comerciais de Todos os Tempos, compilada pela jornalista americana Bernice Kanner, uma honraria que demonstra o seu reconhecimento global. Publicações académicas dedicam-se a analisar os recursos persuasivos utilizados na campanha, destacando-a como exemplo de excelência em comunicação publicitária.
A Influência em Futuras Campanhas
Após o sucesso de “O Primeiro Sutiã”, a indústria publicitária brasileira e internacional adotou progressivamente esta abordagem emocional e afetiva. A campanha abriu caminho para uma nova era de publicidade que prioriza narrativas pessoais e conexões emocionais com o público. Muitos publicitários consideram este comercial como o ponto de viragem que ajudou a delinear a publicidade moderna, estabelecendo novos padrões éticos e criativos.
O legado de Washington Olivetto estende-se muito além deste comercial específico. O publicitário criou outras campanhas clássicas, como a famosa série de anúncios de Bombril com Carlos Moreno, mas foi “O Primeiro Sutiã” que verdadeiramente consolidou a sua posição como um revolucionário da publicidade.
Washington Olivetto: O Génio por Trás da Campanha
Um Legado na História da Publicidade
Washington Olivetto, que faleceu em outubro de 2024 aos 73 anos, deixou um legado indelével na história da publicidade mundial. Sócio fundador da W/Brasil, que posteriormente se tornou W/GGK, Olivetto não foi apenas um publicitário bem-sucedido – ele foi um redefinidor de mercado que compreendeu profundamente a psicologia humana e a forma como as emoções influenciam as decisões de compra.
O próprio Olivetto, ao reflectir sobre o comercial, descreveu-o como “emblemático” do novo rumo que a publicidade tomaria. Ele estava consciente, mesmo na época, de que tinha criado algo extraordinário. A sua capacidade para identificar não apenas uma oportunidade comercial, mas uma verdade humana universal, foi o que separou este comercial de tantos outros.
O Livro que Perpetua a Memória
Em 2008, para celebrar o 21º aniversário do comercial – considerado a maioridade da campanha – Washington Olivetto publicou um livro intitulado “O Primeiro a Gente Nunca Esquece” pela editora Planeta. Este livro não é apenas uma homenagem a um comercial; é uma análise profunda dos bastidores da criação, do impacto que causou no Brasil e no mundo, e da forma como uma ideia simples pode transformar vidas e redefinir indústrias.
O livro inclui dezenas de reportagens, entrevistas e artigos de jornais e revistas que citam e adaptam o bordão da campanha ao longo dos anos. Oferece também um testemunho perspicaz de figuras importantes na história da comunicação brasileira, incluindo um texto de encerramento de José Bonifácio de Oliveira, o lendário Boni, que foi presidente de radiodifusão durante períodos cruciais da história da televisão brasileira.
Extensões Modernas: A Releitura Contemporânea
Uma Versão Trans para Novos Tempos
Décadas após o comercial original, o impacto de “O Primeiro Sutiã” continuou a ser reconhecido, levando a uma reinterpretação moderna. A produtora Madre Mia Filmes, em colaboração com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), criou um curta-metragem inspirado no comercial clássico que apresenta uma perspectiva contemporânea e inclusiva.
Este novo filme narra a história real de uma criança transexual, permitindo que o conceito original – o significado emocional e transformador do primeiro soutien – se estenda para incluir experiências e identidades que vão além do escopo da campanha original. Ludmila, protagonista da peça, nasceu como Hugo Calvan mas sempre se identificou como rapariga. O filme aborda delicadamente o processo de aceitação do pai, mantendo a sensibilidade emocional que tornou o comercial de 1987 tão memorável.
Esta releitura demonstra que o conceito fundamental – o de um momento significativo de aceitação e identidade – permanece atemporal e universalmente relevante, transcendendo categorias tradicionais.
Os Recursos Persuasivos que Tornaram o Comercial Inesquecível
A Estrutura Narrativa Simplista mas Poderosa
Uma análise académica detalhada dos recursos persuasivos do comercial revela uma construção bastante sofisticada, apesar da sua aparente simplicidade. O comercial utiliza uma narrativa linear que segue uma rapariga através de um momento pessoal significativo, evitando complicações narrativas desnecessárias que pudessem diluir a mensagem emocional central.
A escolha de focar num único momento – a compra e o uso do primeiro soutien – é estrategicamente brilhante. Não tenta contar demasiadas histórias ou fazer apelos múltiplos. Em vez disso, concentra-se numa verdade singular e universal que todos os espectadores podem reconhecer e com a qual podem conectar.
O Poder da Autenticidade Emocional
O que distingue verdadeiramente este comercial é a sua autenticidade emocional. Não há exagero, melodrama artificial ou mensagens comerciais agressivas. A vulnerabilidade da personagem principal – uma rapariga no limiar da maternidade – é apresentada de forma tão genuína que o público esquece que está a ver um anúncio. Este é um dos maiores elogios que pode ser feito a qualquer peça de comunicação.
A câmara, a iluminação, a banda sonora e cada elemento técnico trabalham em conjunto para criar uma atmosfera de intimidade e nostalgia. O resultado é um comercial que se sente menos como publicidade e mais como um momento capturado de uma vida real – exatamente o que torna tão eficaz.
A Importância do Soutien: Mais Além do Comercial
Uma História de Evolução e Empoderamento
Enquanto “O Primeiro Sutiã” é verdadeiramente sobre um comercial, o soutien em si carrega uma história profunda de evolução social e empoderamento feminino. O soutien moderno, como o conhecemos hoje, é o resultado de séculos de transformação social, tecnológica e cultural.
No século XVIII, os “stays” europeus eram construções rígidas feitas de metal ou osso, servindo menos para conforto e mais para conformação a ideais de beleza amplamente desconfortáveis. Durante a era vitoriana, o corset era a peça de moda dominante, moldando o corpo numa silhueta hourglass exagerada, frequentemente causando problemas de saúde significativos.
A revolução do soutien no século XX, particularmente a invenção de Mary Phelps Jacob em 1913 – um design simples feito de dois pedaços de tecido com alças – representou não apenas inovação técnica, mas uma declaração de liberdade. Durante a Segunda Guerra Mundial, os soutiens tornaram-se mais práticos e menos restritivos, refletindo a mudança das mulheres dentro da sociedade.
Materiais e Tecnologia Moderna
Hoje, o soutien é uma peça sofisticada, beneficiando de décadas de investigação e inovação. Materiais como a memória de forma, o Jacquard e as fibras sintéticas modernas oferecem combinações de conforto e suporte anteriormente inimaginável. A indústria está cada vez mais focada em sustentabilidade, com soutiens feitos de algodão orgânico, fibras recicladas e materiais biodegradáveis a tornarem-se cada vez mais prevalentes.
Simultaneamente, a personalização está a ganhar espaço, com marcas a oferecer modelos adaptados às necessidades específicas e preferências individuais de cada mulher. Esta evolução reflete uma mudança mais ampla na sociedade: da conformidade para a inclusão, da uniformidade para a diversidade.
FAQ: Perguntas Frequentes sobre O Primeiro Sutiã
Quando foi criado o comercial “O Primeiro Sutiã”?
O comercial foi criado em abril de 1987 pela agência W/GGK para a marca Valisère. Estreou num intervalo do programa Fantástico, transmitido pela Rede Globo num domingo à noite.
Quem é o criador do comercial?
Washington Olivetto é o criador principal do comercial, com contribuições criativas de Rose Ferraz e Camila Franco. O filme foi realizado por Julio Xavier. Olivetto faleceu em outubro de 2024, deixando um legado monumental na história da publicidade.
Quantos anos tinha Patrícia Lucchesi quando protagonizou o comercial?
Patrícia Lucchesi tinha apenas 11 anos quando interpretou a rapariga que comprava o seu primeiro soutien. A performance da jovem atriz foi fundamental para o sucesso emocional da campanha.
Quantas vezes foi exibido o comercial na televisão?
O comercial foi exibido integralmente (na versão de 90 segundos) apenas três vezes na Rede Globo. Apesar desta exibição limitada, alcançou um impacto cultural extraordinário, possivelmente devido à sua qualidade emocional excepcional.
Qual foi o orçamento de produção do comercial?
O comercial custou 86 mil dólares americanos na época, um investimento relativamente modesto que geraria um retorno de imagem e valor cultural incomparável.
Onde posso ver o comercial original?
O comercial está disponível em várias plataformas online, incluindo repositórios de publicidades históricas e plataformas de vídeo. Muitas páginas de história da publicidade brasileira conservam cópias do comercial para fins de referência histórica.
O que é a releitura moderna do comercial?
A produtora Madre Mia Filmes criou um curta-metragem inspirado no comercial original, produzido em colaboração com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Este novo filme apresenta a história de uma criança transexual, expandindo o conceito original para incluir perspectivas e experiências contemporâneas.
Por que o comercial é considerado tão importante para a publicidade?
O comercial é considerado revolucionário porque foi um dos primeiros a utilizar uma abordagem verdadeiramente emocional e afetiva à publicidade, em vez de focar simplesmente em características do produto. Ajudou a redefinir os padrões da publicidade moderna, influenciando gerações de publicitários a seguir uma abordagem mais humanizada e conectada emocionalmente com o público.
O Legado Permanente de “O Primeiro Sutiã”
“O Primeiro Sutiã” não é meramente um comercial; é um fenómeno cultural que continua a ressoar décadas após a sua criação. A sua importância transcende o mundo da publicidade, tocando em temas universais de crescimento, identidade e transição para a vida adulta.
O comercial representa um ponto de viragem na história da comunicação, demonstrando que as emoções genuínas e as narrativas autênticas são mais poderosas do que qualquer apelo racional ou técnica de marketing convencional. Washington Olivetto e a sua equipa criativa compreenderam algo fundamental sobre a natureza humana: que nos conectamos através de histórias, não através de características de produtos.
Enquanto a tecnologia publicitária continua a evoluir, enquanto as plataformas de comunicação se transformam, e enquanto novas gerações descobrem este comercial clássico, a sua mensagem central permanece imutável: existem momentos na vida que nunca esquecemos, e há uma beleza e dignidade em reconhecer esses momentos. Para milhões de mulheres em todo o mundo de língua portuguesa, “O Primeiro Sutiã” é exatamente isso – um momento que marcou gerações e se tornou parte permanente do nosso património cultural coletivo.


